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Todos sempre aprendendo

No fim de maio deste ano, estive no seminário do Fórum Municipal de Educação Infantil, que aconteceu no auditório da Câmara Municipal, em São Paulo. Havia, cerca de 100 pessoas, a maioria professores de creches e pré-escolas, mas também pesquisadores e professores universitários. O evento teve início com uma linda homenagem à professora Fúlvia Rosemberg (1942-2014), cuja atividade intelectual e militante foi fundamental para o desenvolvimento de uma cultura positiva da infância em nosso país ao longo dos últimos 40 anos.

O foco do encontro foi discutir sobre a qualidade da educação infantil em São Paulo, bastante comprometida, nos últimos dias, por declarações políticas de redução de verbas para ampliação do número de vagas em creches em nosso município. Gostei de estar lá e retomar minhas atividades políticas em prol do segmento. Gostei, também, de ficar calada, observando e ouvindo atentamente gente jovem e implicada em suas instituições em busca de soluções que sejam enriquecedoras para as crianças com as quais trabalham.

No entanto, pensei muito sobre o que pode significar os novos caminhos que o discurso da prática tem afirmado incansavelmente a respeito das aprendizagens mais sistematizadas e focadas na inclusão de crianças de 4 e 5 anos na cultura letrada e na matemática do mundo adulto. Várias falas se contrapuseram às turmas mistas de crianças de várias idades em grupos de aprendizagem, inclusive afirmando que apenas o brincar, e não mais que ele, deve ser o foco do ensino na educação infantil.

Fiquei, realmente, incomodada! Houve quem tentasse propor uma reflexão, da mesa organizadora, sobre a necessidade de olharmos para as crianças como um conjunto de indivíduos em interação e como a diversidade pode ser positiva para as aprendizagens infantis. No entanto, a participação nesse evento me fez refletir como ainda estamos longe, como professores, de olhar para a infância e tentarmos propor programas e currículos enriquecedores e intencionais que levem em conta a curiosidade, a atividade e a capacidade infantil de aprender em grupo, com diferentes pessoas, pares, objetos e situações, independentemente de definições preconcebidas e etapas pré-determinadas.

Somos binários. Por que pensamos assim? Porque abandonamos experiências ricas, tais como as realizadas em várias pré-escolas ou mesmo em creches que conseguem aproveitar a diversidade, a mistura de faixas etárias e a presença de situações diversas em prol de crenças idealizadas em como as crianças aprendem e podem ser felizes. Relato uma cena de pré-escola que acabo de observar em Toronto, no Canadá, onde voltei para trabalhar por uma semana. Numa das salas, 20 crianças entre 4 e 5 anos conversavam em círculo sobre o crescimento de suas larvas e borboletas. Mas não era uma conversa opinativa, não! A professora, com um retroprojetor, ampliava as larvas na parede, enquanto uma das meninas lia, em voz alta, o processo de crescimento das borboletas em um livro ilustrado.

A leitura, ainda pouco fluente, demandou dos colegas uma atenção dobrada e, vez ou outra, víamos crianças levantando-se para apontar, na parede, as larvas sobre as quais se discutia. A diversidade de contribuições, ideias e comparações independiam das idades. Por outro lado, a seriedade da situação fazia lembrar um verdadeiro simpósio científico. Ao final perguntei à professora se ela sentia dificuldades em trabalhar com grupos mistos, ao que ela respondeu com um olhar surpreso. Como assim? Misto? As crianças são pouco diferentes… as que estão há mais tempo na turma introduzem as novas em nossa rotina e nossa cultura escolar, só isso. De resto, estamos todos, eu e as crianças, sempre aprendendo. Pensei no evento: “Por que não fazemos o mesmo?”

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